terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Os momentos dramáticos do fim do jornal "Última Hora"


05/01/2010 - 10h45
Jornalista relata em livro momentos dramáticos do fim do jornal "Última Hora"
da Folha Online
Divulgação

Relata momentos dramáticos do fim do jornal dirigido por Samuel Wainer
Fundador de um império que durou 20 anos, Samuel Wainer era um populista apaixonado pelo trabalho. À frente do jornal carioca "Última Hora", ele chegou a reunir pesos-pesados em seu time de colunistas, como Nelson Rodrigues, Stanislaw Ponte Preta, Antonio Maria e outros. Mas, no início dos anos 70, sua "grande aventura" --como ele denominava a criação e direção do veículo-- chegou ao fim.
O jornalista Benicio Medeiros, que trabalhou durante um ano e meio com Wainer e viu de perto o jornal ser vendido e mudar de rumo, relata os lances mais dramáticos do "Última Hora" em "A Rotativa Parou!", lançado no fim de novembro pela Civilização Brasileira, selo da Editora Record.
O autor conta, entre outras históruas, que, com o golpe de 1964, Wainer teve seus direitos cassados. Exilado em Paris, ele conseguiu manter o "Última Hora" até 1971, quando vendeu o jornal para saldar dívidas. De patrão a empregado, acabou num conjugado, batucando uma máquina de escrever e com uma única cadeira em seu apartamento. Morreu aos 70 anos, sozinho, no corredor de um hospital.
Confira abaixo um trecho do livro.

A grande aventura
O fim de a Última Hora - a Última Hora criada e dirigida por Samuel Wainer, e não a Última Hora que a sucedeu - foi um dos acontecimentos mais tristes da minha vida profissional. Esse desfecho infeliz não deveria ter provocado muita surpresa. Todo mundo sabia que a empresa enfrentava sérios problemas financeiros e que, a não ser por um milagre, não duraria muito. Mesmo assim, quando se anunciou a venda do jornal, em abril de 1971, e a rotativa da UH parou de vez, o impacto foi geral entre os funcionários. É que, no fundo de cada consciência, subsistia a esperança de que Samuel, comsua decantada esperteza, pudesse contornar a grande crise, que não fora a primeira na sua vida de empresário.
Desta vez, no entanto, não houve jeito.
Relembro o clima sombrio que tomou conta da redação. Repórteres esvaziando as gavetas. Despedidas chorosas. Empregados antigos, sentados, com o olhar perdido. Terminava assim, melancolicamente, aquilo que Samuel Wainer chamou de sua "grande aventura". E a UH foi realmente uma aventura, cheia de lances heroicos, quase épicos, e outros nem tanto, mas que deixou uma marca profunda não só na memória daqueles que participaram daquele empreendimento como na própria vida cultural e política do país.
Muito já se falou dos efeitos renovadores da UH sobre a imprensa brasileira e creio que muitos conhecem sua proposta. Um vigoroso jornal popular - "populista, segundo os detratores -, no entanto fora dos modelos sensacionalistas em voga cujo objetivo era mais emocionar e provocar emoções baratas do que manter o leitor informado. Uma publicação de tendência socialista, ou mais propriamente trabalhista, que devia representar, na fase inicial, um canal aberto entre Getúlio Vargas e um segmento social mais ou menos abstrato da população, a que se chamaria hoje de "povão". Inclua-se, nessa categoria, a classe proletária e largas faixas da classe média urbana, desassistidas quanto a algumas necessidades básicas - faltava água, faltava luz, faltava leite, faltava carne - e à espera de um veículo que as compreendesse e abrisse espaço às suas aflições do dia a dia.
Em que pesem os perigos do modelo, hoje possivelmente não realizável - refiro-me à associação entre um jornalista-empresário e um governante -, o esquema expressava bem os costumes da época. Da mesma forma que a UH expressava a mente aberta do seu proprietário. Acredito que Samuel tenha conquistado com seu jornal aquele tipo de interação com o leitor que buscava acima de tudo.
Ele abriu espaço às causa populares, deu voz à Zona Norte e aos subúrbios do Rio. Uma das primeiras reportagens da UH versou sobre o estabelecimento de um júri popular, organizado na sede do Social Ramos Clube pelo próprio jornal, para julgar um açougueiro local acusado de roubar no peso. Saíram reportagens também sobre o leite que vinha misturado com água e urina, ameaçando a saúde da população, e outros assuntos relacionados ao interesse do consumidor, um termo que nem existia, naquela época, com o sentido atual.
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"A Rotativa Parou!"
Autor: Benicio Medeiros
Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 216
Quanto: R$ 29,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha

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