domingo, 12 de setembro de 2010

Notas e constatação de um jornalista-turista


Vitor Hugo Soares é jornalista
De Belém do Pará (PA)
Publicado no Blog do Noblat

Na quarta-feira da semana passada, convidado para um evento familiar a que não podia faltar, peguei um avião de manhã no aeroporto de Salvador e rumei para o Norte, com destino ao Pará. Deixava para trás, por uma semana, a morna campanha sucessória que pelo andar das pesquisas e salvo improvável surpresa de última hora, caminha para dar em overdose de petismo na Bahia.
Na disputa dos votos do quarto maior colégio eleitoral do País, Dilma Rousseff surfa a largas braçadas rumo à presidência na "onda Lula", mais impressionante ainda na região Nordeste. Jaques Wagner, embora sem o mesmo vigor, aparenta também nadar sem maiores sustos de morrer na praia - como o adversário Paulo Souto (DEM) no pleito passado - embora a possibilidade deva ser levada em conta até mesmo por este precedente recente.

A probabilidade maior, no entanto, é de mais uma temporada do quatro anos do "galego" (como se refere o presidente ao governador) no Palácio de Ondina.
Começo quase sem perceber uma viagem por dois brasis diferentes nas paisagens, nos sabores e, principalmente, no jeito de encarar este em geral modorrento confronto de poder em 2010, que entra na reta final. No meio da tarde desço em Brasília, um país à parte desde o aeroporto. Logo se vê que a máxima que mais importa por lá é a da canção do saudoso piauiense Torquato Neto: "Só me interessa o que pode dar certo". No caso, descobrir com o máximo de antecedência possível quem será o vencedor. A quem dirigir os memorandos dos pleitos futuros. Com quem negociar interesses a partir de janeiro de 2011. O resto, seja quem for o vencedor, é miudeza que se acerta com o tempo. Dilma ou Serra dá no mesmo no Planalto para essa gente.
Troco de avião para sobrevoar a floresta amazônica: imensa, verdejante, caudalosa como a poesia de Thiago de Mello ou do chileno Pablo Neruda. Aqui e ali os blocos de fumaça das queimadas na mata se projetem no espaço que observo pesaroso da janela da aeronave. "Até quando?", pergunto intimamente. Sem resposta, no final do dia, desembarco na escaldante e hospitaleira Belém da Fafá, que ferve como no tempo das Diretas Já. Duplamente: pelo forte calor que normalmente faz na região e pela encarniçada batalha eleitoral na qual se defrontam PT e PSDB pelo governo estadual. Neste caso, diferentemente da Bahia, com larga vantagem para os tucanos.
Tanto pelo que apontam os números das pesquisas mais recentes, como pelo que o visitante vê e ouve em todo canto: ruas, taxis, bares, esquinas. Também nos ambientes mais sóbrios e fechados, como na cerimônia de casamento a que fui convidado, realizada na basílica de Nossa Senhora de Nazaré, da famosa e multitudinária procissão do Círio. O interesse e a participação vão do histórico formigueiro humano do mercado Ver-o-Peso aos recantos mais recomendados pelas elites locais, como o belíssimo Mangal das Garças.
No Pará se vê um outro Brasil. Uma campanha política como nos melhores tempos das grandes e ferrenhas eleições estaduais. Coisa de dar gosto ver.
"Vamos tirar o Pará dos vermelhos", convoca o locutor, brandindo um dos mais contundentes e bem bolados slogans do candidato Simão Jatene, do PSDB, líder disparado nas pesquisas, que chuta no calcanhar de Aquiles da governadora petista Ana Julia Carepa. A menos de um mês do pleito, a "vermelha" a que se refere o slogan tucano, está encostada nas cordas à espera de uma "visita salvadora", de Lula e Dilma, para "virar o jogo".
O grito contra o petismo parte de um vistoso carro de som com potência de decibéis de dar inveja aos trios elétricos de Ivete Sangalo, Timbalada de Carlinhos Brown ou de Daniela Mercury no carnaval baiano. Está parado na frente do imenso centro de exposições de Belém, por onde circulam milhares de pessoas de todas as idades na concorrida Feira Anual de Livro do Pará. É domingo, último dia do evento, e o locutor anuncia a pesquisa recém-saída do forno de um dos principais institutos do país, que o jornal O Liberal publicaria no dia seguinte. Muita gente que sai da feira parece gostar do que ouve, e até se diverte com o esforço do acanhado carro de som ao lado, de um candidato a deputado que faz campanha pela reeleição de Ana Júlia.
"Essa mulher não fez nada nesses quatro anos, a não ser os viadutos novos no caminho do aeroporto, que é obra da PAC, com dinheiro federal", comenta o taxista no caminho de volta para o hotel. "Tudo de bom que o senhor viu em Belém foi Jatene que fez", completa, desnudando a preferência e o voto.
Retorno à Bahia na quarta-feira, com nova escala em Brasília. Tempo curto de parada, mas o suficiente para Margarida, jornalista atenta que viaja comigo adquirir a revista Isto É desta semana, que traz a contundente e digna entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jornalista Yan Boechat. Goste ou não de FHC, é preciso tirar o chapeu e reconhecer: a entrevista na revista semanal o coloca em lugar de destaque entre aqueles que Ulysses Guimarães definia em seu famoso decálogo dos "verdadeiros estadistas".
Alijado da campanha tucana, "que prefere usar a imagem de Lula à dele, FHC dexa claro que está insatisfeito e ataca os marqueteiros de Serra", enquanto arruma as malas para uma viagem para fora do país, "por motivos particulares". Anda magoado porque considera que o País mudou em seu governo "e agora o Serra faz uma campanha escondendo que quem mudou o país fomos nós". Mas quanta verdade e sutilidade nas queixa sobre a campanha tucana."Eu não quero colocar toda responsabilidade nele (Serra). É todo mundo. É preciso mais tenacidade, motivação. Serra é professor, sabe falar de maneira clara. Há mil modos de se comunicar com o povo". Qual a receita? "Não há, mas nesse tipo de situação, a meu ver, você tem que convencer, ser espontâneo, fazer graça e ser contundente também. Tem que misturar tudo isso e mostrar que tem garra", ensina.
FHC deixa o recado final para Serra, antes de embarcar para a Alemanha: "Não há uma onda petista. Há uma onda lulista. Em governo de Estado o PT não está crescendo em nenhum lugar. Acho que nesse momento entra a vontade. Ou entra com vontade ou não faz nada".
Na mosca, FHC. O Pará que o diga.


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